conjuntura

“Lula-lá” é certamente o chamado político mais emblemático dos últimos 20 anos no Brasil. O futuro naquele momento tinha dono.

Trocada em miúdos, a história brasileira recente é próxima da melhor possível, mas também da mais previsível. A parcela da sociedade e a geração a quem normalmente caberia conduzir a transição democrática e o poder político no país a partir de então de fato assumiram e cumpriram o papel. Lula e FHC, o PT e o PSDB, a USP, a CUT e a hegemonia paulista são a expressão deste enredo. E foram bem, como todo o país, ninguém pode negar.

É verdade: já não somos o país do improviso, já não nos orgulhamos de levar vantagem, já vamos bem além da clivagem casa grande / senzala. Driblamos menos, mas vencemos mais, com mais consistência e regularidade. Nos reconhecemos em 190 milhões, no cotidiano público, mais ainda do que de camisa amarela. Temos uma classe média urbana majoritária e crescente, ganhando poder. E avançamos com uma missão republicana clara, ainda que gradual.

E agora? Lembro-me de discutir já há um bom tempo com um amigo sobre a ausência de maiores debates sobre os rumos do país ser sintoma de mediocridade ou de normalidade. Deve ser dos dois. Mas o fato é que alcançamos um grau notável de consenso, e tudo indica que o debate eleitoral do ano que vem poderá ter cara de desenvolvido: lateral, além das questões elementares. Como tem dito Marina Silva em sua tarefa de trazer a conversa para o século XXI, a questão será o que enfatizar em acréscimo à estabilidade econômica e às políticas sociais, que são já conquistas incorporadas por todo mundo. Commodities, para usar o vocabulário da vez.

Uma controvérsia chave poderia ser a dos limites do Estado, nesta nova era de bonança e horizontes de crescimento. Mas outro fato é que gostamos demais de Estado. Depois de todos os ensaios, não somos mesmo liberais. É quase irresistível deixar-se abrigar sob a sombra dos auspícios estatais – meus incentivos, meus benefícios, meus financiamentos, minha terra etc.. E a máquina política montada em torno da distribuição deles. Mais democrática do que antes: um naco para cada um, direitos em lugar de benesses. Mas se deixar, não menos patrimonialista. E sempre fonte de concessão de benefícios.

Sobra pouco espaço para dilemas, se o rumo é claro e os papéis inevitáveis. Pouco espaço para novas rodadas de institucionalização e despersonalização, se a máquina se cristaliza na intermediação. Pouco espaço para avançar, além de seguir a inércia, o que já não é pouco.

A resposta poderia vir justamente das novas classes médias urbanas, filhas da iniciativa, de conquistas individuais e novidades do tabuleiro social brasileiro. E das novas gerações das velhas classes também. Mas elas são verdes ainda. Aécio, Marina e Ciro têm, cada um na sua raia, a cara delas (como poderia também ter um liberal-conservador pátrio, mas este ainda não tem rosto).

É interessante observar a tensão geracional das pré-candidaturas sobre a mesa: Dilma versus Ciro, Serra versus Aécio, e Marina por fora, novo Lula, ou Lula e meio. Fim de um ciclo ou extensão dele? Extensão como coroação ou como diluição? Marina, Aécio e Ciro inspiram pela evidência de que contém muito mais o futuro, cobrando passagem. Mas o futuro talvez não seja agora. Porque ainda há ciclo por cumprir ou porque seus titulares ainda podem se impor, contra o tempo.

A resposta virá nos próximos meses. Por ora, o terceiro fato é que o futuro ainda não tem dono, nem forma. Sem jingle, bandeiras ou militantes. Ele será certamente mais difuso e diverso do que ontem, mais “em rede”, mas faria um bem danado que alguém começasse a lhe dar contornos. O que pode haver de novo, ainda que não na agenda macro, mas na micro, que deve mesmo ser a tônica da sequência? Quem tem um novo chamado inspirador para oferecer? Procura-se um programa, para um rosto.

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