fim da canção

Fim da canção é um mote sedutor. Tem a atração acolhedora de toda melancolia.

Termino de ler o ensaio de Fernando de Barros e Silva, na revista Serrote, sobre o assunto.

Como todos antes dele, ele persegue a lebre levantada por Chico Buarque no final de 2004 (em entrevista ao próprio Barros e Silva): “Assim como a ópera, a música lírica, foi um fenômeno do século 19, talvez a canção, tal como a conhecemos, seja um fenômeno do século 20. No Brasil, isso é nítido. [...] Quando você vê um fenômeno como o rap, talvez seja o sinal mais evidente de que a canção já foi, passou.”

O texto é bom, repleto de insights e referências instigantes. A tese é simples: a proposta de Chico não pode ser tomada ao pé da letra, ou da partitura, mas sim em seu conteúdo simbólico. A canção, é claro, continua a existir, apenas com menor originalidade e centralidade (como a ópera, sempre se poderia dizer). Não vem ao caso discutir isso. O fim que conta é o do mito/projeto dela como expressão refinada de uma identidade comum do povo brasileiro.

E conta mais, propõe Fernando, pelo que revela dos caminhos do Brasil de hoje: “Se essa discussão vai além de um cabo de guerra tolo entre especialistas, para tocar, como sugerimos, em um nervo sensível da cultura, é também porque ela transborda por todos os lados e exprime uma dúvida de fundo a respeito do momento histórico atual.”

O fim do mito da canção seria o correspondente estético do esgotamento de seu projeto político. Fala José Miguel Wisnik: “No Brasil, a possibilidade de haver música popular difundida em grande quantidade e com extraordinária qualidade ligou-se ao mesmo tempo ao horizonte de uma modernização progressista do país.” Este horizonte, diz Barros e Silva, é que teria sumido junto com a canção do nosso campo de visão.

Não é pouca coisa. E alguém poderia sugerir que é projeção demais para um pobre violão (tanta expectativa em torno da música popular faz pensar no Fitzcarraldo de Werner Herzog, empenhado em levar ópera Amazônia adentro). Mas é justo também: a canção popular no Brasil guarda a marca profunda de um tempo (ou de um século, como propõe Chico), e um tempo em que todos souberam cantar “Chega de Saudade” tem sua beleza a ser velada.

Só que Fernando de Barros vai além. Logo depois de alertar que o mito/projeto em questão nunca foi muito mais do que das classes médias letradas dos centros urbanos, trai-se na constatação de um “rebaixamento brutal do gosto” e uma “regressão da audição” no Brasil de hoje, por conta da hegemonia de gêneros como o neosertanejo, o axé ou o pagode (e é sintomático que não lhe ocorra então falar em funk, brega ou forró eletrônico). Recorre a uma excelente oposição proposta por Marcelo Coelho entre “Gente Humilde” (“e eu que não creio, peço a Deus por minha gente, é gente humilde, que vontade de chorar”), de 1969, e “Subúrbio” (“lá não tem claro-escuro, a luz é dura, a chapa é quente, que futuro tem aquela gente toda), de 2006, para enxergar aí um Chico Buarque, como aquelas mesmas classes médias letradas, inquieto diante da afirmação regressiva de linguagens e poderes periféricos.

Nesta leitura, o “fala Penha, fala Irajá, fala Encantando, Bangu, fala Realengo” de “Subúrbio” seria antes uma rendição do que uma saudação. O “evoé, jovens à vista” de “Paratodos”, em 1993, não teria sido bem para esses jovens (os da “língua do rap”). E Chico estaria então “exilado dentro de casa” – a canção, o Rio de Janeiro, o Brasil.

Não é o caso de disputar com Barros e Silva a primazia da interpretação de Chico Buarque (o mesmo de “Carioca” e “Baioque”). Mas talvez seja o de propor que cada um fale por si.

Chico em 2004 apenas cantava a bola da década de Lula, das periferias emergentes e do “agora por eles mesmos”. E o fazia com a grandeza e generosidade habituais, sem em nenhum momento pedir que não se altere o samba tanto assim. Não é a ele portanto que qualquer saudosismo deve ser imputado.

Já eu, por exemplo, escrevo tudo isso sem conseguir deixar de pensar na “Lapa” de “Guinga e Pedro Sá”, “Lula e FH”, cantada por Caetano ainda no ano passado. Ou em Mano Brown reverenciando “Construção” na Rolling Stone. No êxito não-tutelado dos dois filhos de Francisco, de Chimbinha e Joelma, Marlboro e Márcio Victor (e de Lula também, por que não?). Em Marina Silva e MV Bill advogando educação de qualidade.

As imagens poderiam multiplicar-se, até bem além dos limites do “nosso samba” de “Feitiço”, que já em 2002 tinha “mangue beat, berimbau, hip-hop, Vigário Geral, Capão Redondo e Candeal”. E funk. Imagens todas, creio eu, da mesma década antevista por Chico e que escapam sugestivamente ao radar de Barros e Silva.

Não ignoro, é claro, as acusações de complacência que sua invocação pode despertar. Nem o muito por avaliar na distância entre o país, a “nova classe média” e a musicalidade que resultam daí e os roteiros de progresso e inclusão traçados pela canção. Mas gosto de refletir sobre a oposição entre as repetições insistentes de “tem” em “Feitiço” e de “não tem” em “Subúrbio”. E vejo inícios (ou continuações) demais em tudo isso para satisfazer-me com o “fim de linha histórico” a que Fernando de Barros chega no final de seu ensaio.

Tem mais samba o perdão que a despedida. Diante de um texto tão genuinamente belo como o de Barros e Silva, não serei eu a reivindicar a massa afinal comendo o fino biscoito que fabricamos. No fundo, a motivação fundamental desse artigo é apenas a de não poder deixar de notar os riscos de excessos no trato tanto com mitos, quanto com contramitos. Ao apontar a mistificação contida nas expectativas das classes médias letradas em relação à canção, Fernando de Barros lembra como elas “muitas vezes, inclusive no período em questão, confundiram suas aspirações (e ilusões) com os interesses nacionais”. Talvez seja preciso cuidado para não fazer o mesmo com as desilusões.

1 comentário

  1. Li o texto. É bem escrito, mas o Barros e Silva deitou o Chico num leito de Procusto. Quis fazer dele o maior sambista que a Escola de Frankfurt já produziu.

    O cara é livre pra achar que “o Brasil perdeu a chance de ser um país decente” ou coisa que o valha. Mas daí a querer fazer do Chico seu porta-voz, vai uma distância. Só se for o de Oliveira, e não o Buarque.

    Até um certo ponto ele vai bem. A análise da Subúrbio é muito interessante. O problema é extrapolar a partir daí para decretar a adesão de Chico a uma visão (rasa, na minha opinião) de país.

    O espanto e a admiração com o caos e as contradições brasileiras sempre foram tão fortes em Chico quanto sua capacidade de transformá-los em poesia e prosa. Agora, entendê-los como sintomas de desesperança e desprezo é forçar um pouco a mão, acho eu. Nas canções como nos romances – essa outra arte em extinção.

    Barros, no fundo, chora, por sua conta, o leite derramado dos sonhos de progresso do século XX – das esquerdas, mas também da (antiga) classe média. E aí acaba se entregando, como você bem mostrou: cai nos clichês mais surrados sobre a degradação do gosto, na minha opinião. Se era aí que ele queria chegar, que pelo menos o fizesse por sua própria conta.

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