freyre e demóstenes

Em causas de alta relevância e polarização, nunca foi fácil argumentar com matizes.

Mas nesta semana de debate das cotas raciais no Supremo Tribunal Federal, uma amiga me enviou o link com a notícia da exposição anticotas feita lá pelo senador Demóstenes Torres, acompanhado do comentário: “O Gilberto Freyre serve para sustentar esse tipo de argumentação. Ele não é só isso, claro. Mas é isso também. E não é pouca coisa ter o Demóstenes Torres evocando Gilberto Freyre para dizer que o estupro foi consensual e que a miscigenação no Brasil foi bonita.”

Hoje Elio Gaspari e Miriam Leitão, na Folha e no Globo, reforçam o repúdio devido ao senador.

Não há o que comentar sobre a fala de Demóstenes e seu poder de síntese sobre os malabarismos mentais feitos por parte da elite brasileira para conviver com a própria má consciência. Nem é fácil divergir da amiga em questão (é uma amiga querida, de resto).

Mas a observação dos matizes necessários neste caso me impede de desconsiderar uma diferença primordial: eu acho sim que a miscigenação brasileira foi e é uma coisa bonita. Ou pelo menos, para formular em termos que permitam um acordo, que tem sua beleza a ser defendida.

Não preciso para isso negar o estupro, o racismo persistente e o fato da escravidão permanecer por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Apenas evitar a armadilha das generalizações binárias no calor do combate. E isso não por um capricho acadêmico ou literário, mas pelo valor que tem também para a história das relações humanas no Brasil.

O povo chocolate e mel da refavela de Gilberto Gil e a japonesa loura e a nordestina moura da São Paulo do Premeditando o Breque são um fato (e têm sua própria complexidade a exigir atenção, como nos lembra Mano Brown no trecho destacado no Consciência Mulata publicado abaixo). Como o são também o sincretismo cultural e religioso e os caboclos, cafuzos, mamelucos e mulatos (“pardos”, na sintomática – pela sugestão de negatividade que contém – terminologia aglutinadora adotada pelo IBGE) espalhados por nossas vastas solidões.

A criação de um imaginário capaz de saudar esses fatos e acolhê-los como parte constituinte da nossa identidade em formação não foi simplesmente uma conspiração da elite branca para ocultar o passivo da escravidão e evitar o surgimento de uma consciência negra no país, mas também e principalmente uma construção histórica notável, em um momento em que o conceito de raças e o elogio da pureza racial ainda circulavam com desenvoltura no universo intelectual do ocidente. Não foi pouco nem gratuito ter sabido responder a isso com o ideal da mistura como fundamento do nosso próprio valor e singularidade.

Não foi e não é, em um momento em que o convívio com o diferente está longe de ser um problema resolvido naquele mesmo universo. Quando um chamado como “hoje tem festa no gueto / pode vir, pode chegar / misturando o mundo inteiro / vamos ver no que é que dá / tem gente de toda cor / tem raça de toda fé / guitarras de rock’n roll / batuques de candomblé” é festejado por multidões insuspeitas na variedade de cores e acolhido como música-tema nacional durante a Copa do Mundo (como aconteceu em 2002), há algo de valioso – e atualizado – a ser notado.

Mas talvez tudo isso aconteça porque havia também algo de preciso na narrativa do Brasil feita por Gilberto Freyre, entre outros. Narrativa que o texto de Elio Gaspari lincado acima me poupa da tarefa de livrar da acusação de negligenciar a brutalidade da escravidão. Mas cujo mérito está justamente em não se limitar a ela, e avançar na exploração da complexidade, ambiguidades e nuances da experiência brasileira. Pretender vinculá-la à sua apropriação indébita pelos Demóstenes Torres das nossas tribunas equivale ao sociólogo Demétrio Magnoli buscando associar o movimento negro ao nazismo, já que ambos lidam com a noção de raça. Nos dois casos, ativismos excessivos turvando a compreensão mais fina do que está em jogo.

E mais uma vez, o requisito de sutileza responde aqui a mais do que um mero preciosismo.

Porque na observação da complexidade e na defesa da evidência da mistura há de estar, como esteve antes, a dica para a formulação de uma saída original para o dilema da quitação da dívida histórica sem o apequenamento do “branco é branco, preto é preto” e da “one drop rule” que acompanham as políticas afirmativas no contexto norteamericano que as inspira. Padê em lugar de apartheid, encontro e entrelaçamento mais ainda que multiculturalismo, como sugere Antonio Risério.

Por sua vez, na desconstrução do paralelo vulgar de Magnoli, uma pista que pode talvez ajudar a colocar a conversa em termos mais adequados: o que está em debate não é uma questão racial, mas histórica. A justificativa para o benefício das políticas afirmativas aos negros e mestiços brasileiros não deriva da sua negritude em maior ou menor grau, mas do legado secular da escravidão. Ele sim segue presente como uma de nossas características nacionais (embora e felizmente talvez já não a única), e é o imperativo do seu banimento tardio que particulariza neste caso os grupos sociais em questão.

Tudo isso pode soar evidente, mas são detalhes que importam, e os rumos das leituras da semana fizeram sentir a necessidade de agregar o palpite. Para fazer isso, quero crer, é permitido repudiar os sofismas de Demóstenes e Magnoli sem precisar levar junto as visões policromáticas de um Gilberto, seja ele Freyre ou Gil, e de quem mais atender ao chamado do gueto, seja ele Pelourinho ou Capão Redondo. Inclusão nas universidades, empresas, governos e espaços de poder em geral pode e deve afinal de contas ter tudo a ver com mistura.

2 comentários

  1. Zé, achei seu blog por acaso! Parabéns pela qualidade de seus textos (que, desde a época da faculdade, são excelentes).

    Um abraço,

    Beraldo

  2. Oi Beraldo, obrigado.
    Mas bem melhor que os parabéns é a oportunidade desse diálogo virtual e ao acaso. Tempo demais, ótimo te encontrar aqui.
    abraço também,

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