modernizações cariocas

Termino de ler o “A Invenção de Copacabana”, de Julia O’Donnell. É desconcertante saber que a nossa vocação para a praia e os biquínis foi inspiração da última moda na Côte d’Azur e em Miami Beach na década de 1910 – mesmo podendo argumentar que fizemos com eles o mesmo que com o futebol.

Mas o mais interessante do espelho do tempo contido no livro não é de fato a saborosa narrativa da formação do ideal de cosmopolitismo praiano, exuberante e faceiro que reivindicamos. Até por ser sempre possível sustentar que já faz tempo a marca cosmopolita mais notável e bela de Copacabana é aquela da Santa Clara Poltergeist de Fausto Fawcett: Kátia Flávia, peregrinos, palacianos, pensionistas, no dia-a-dia cálido e ardente da velha senhora. Mas esta já é outra história.

O mais interessante é o desejo revivido. O desbravar da nova cidade na confluência econômica dos investimentos públicos, dos transportes e do mercado imobiliário, embalado pela expectativa intensa de atualização à modernidade exterior.

O livro começa com a descrição da festa de inauguração do hoje Túnel Velho, ligando Botafogo a Copacabana – autoridades diversas, investidores na malha de bondes e nas terras da nova freguesia e convidados, em passeio inspirador da rua Gonçalves Dias, no centro da capital, à estação inicial do bairro vislumbrado. E evolui com a formação dele nas décadas seguintes, e da consciência local de beleza, elegância e vanguardismo autorreferidos que viria a definir a região. Consciência orgulhosa dos “cilenses”, alcunha adotada para moradores de Copacabana, Ipanema e do Leme (o Leblon viria depois, para um eventual segundo L – ou sucedâneo do Leme), simultânea à das favelas constituindo-se também ao redor.

Na CIL das primeiras décadas do séc. XX o capítulo talvez síntese de um filme carioca quase ritualístico. O Rio viu sua cidade colonial, acanhada, precária e misturada, ser refeita pela chegada de Dom João, com o uso da sigla “PR”, de “Príncipe Regente”, para a marcação de casas de antigos moradores requisitadas pela corte no centro da cidade. Viveu a transição para a República com as grandes reformas de Pereira Passos legando-lhe um urbanismo contemporâneo às custas da expulsão dos moradores de cortiços para os morros e subúrbios. Sucedeu a perda da capital para Brasília com grandes obras combinadas com a replicação na Barra do modelo de ocupação vivenciado nas décadas anteriores na Zona Sul, e a multiplicação de conjuntos habitacionais em áreas remotas com o deslocamento de moradores de favelas removidas de seu núcleo central.

Entre os traços mais duros da cultura está a sua persistência essencial. É claro que melhoramos muito: a capital imperial de Dom Pedro era escravocrata; os moradores dos cortiços de Pereira Passos podiam com naturalidade ser expulsos sem destino; os homens, mulheres e crianças das favelas do Pinto e da Catacumba deslocados na década de 60 para a Vila Kennedy, a Vila Aliança e a Cidade de Deus, já então “no melhor interesse deles”, podiam sê-lo sem expectativas legítimas de direitos e negociação. Hoje tais expectativas têm a lei a seu favor, e parece razoável supor que intervenções e indiferenças daquela magnitude já não cabem no repertório público, ou ao menos não têm como propor-se sem sólida resistência fundada nos recursos da cidadania conquistada.

Mas não será ocioso pensar na “Barra Olímpica” e na opção prioritária pelos BRTs e a extensão do metrô à Barra, diante do relato da celebração da nova linha de bondes para a nascente Copacabana de 1892. Ou na concentração de unidades do Minha Casa, Minha Vida nas franjas urbanas da cidade, com a lembrança dos conjuntos habitacionais dos anos 1960. Ou em casas de favelas marcada pela Prefeitura para remoção com a sigla “SMH”,  ante o “PR” de Dom João. E, de volta à CIL e a Pereira Passos, em como o elogio da cidade construída e exclusiva, supostamente aggiornada perante o mundo, pode continuar ocupando o centro da agenda pública modernizante sob o Redentor.

O Rio de ontem não é o Rio de hoje. Há muito mais direitos e atores em cena do que em qualquer momento passado – e a diferença importa. Mas o Rio de hoje se parece em excesso com o Rio de ontem nos imaginários de progresso, nas limitações do senso de existência comum, este atributo essencial do mundo moderno, nas coincidências desconcertantes entre prioridades da política urbana e aspirações de construtores, imobiliárias e concessionários na ponta privada da linha.

Há permanência demais nas referências no livro de O’Donnel a passagens dos principais jornais da CIL na época registrando as queixas de grupos de senhoras pela inevitável mistura de “gente do povo” com “pessoas de hábitos educados” nos espaços diminutos dos bondes, a estupefação com a multiplicação de barracões na Babilônia e no Tabajaras levando à invasão dos “elegantes bairros” por “má espécie de habitantes”, o chamado pela imposição de um “paradeiro imediato” à infestação das lindas montanhas pelo flagelo das favelas, amparado por sua vez no fato dos moradores locais serem os “melhores contribuintes” e da CIL ser o “salão de visitas” da cidade, a merecer atenções para que o nome do Brasil pudesse correr lá fora como um atestado de grandeza. Há permanência demais na combinação entre a Exposição Universal de 1908 e os Jogos Olímpicos de agora no impulsionar da renovação urbana para um novo tempo idealizado. Há permanência demais no paradoxo apontado por Antonio Risério em “A Cidade no Brasil” (outro livro precioso) da cidade colonial poder ser, no fim das contas, menos segregada do que a contemporânea.

O mundo explode longe, muito longe, o sol responde, o tempo esconde, o vento espalha e as migalhas caem todas sobre Copacabana. Os últimos meses de manifestações e peregrinações cumpriram o papel de lembrar-nos disso, e do quanto falta para a incorporar o sentido concreto de democracia e universalidade no núcleo do projeto carioca. Testemunhando a semana de Francisco, Julia O’Donnell provavelmente não esperaria que seu livro chegasse em momento tão preciso para o bairro e o Rio. O que sua leitura nos recorda é que por bela e singular que a cidade seja – e ela é – enquanto sua modernidade de agora parecer tanto com a de sempre, moderna não será.

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