o futuro é o que sempre foi

Foi o dramaturgo Eugene O’Neill quem disse que “não existe presente ou futuro, apenas o passado, acontecendo de novo e de novo, agora”.

A frase e seu autor dariam uma excelente epígrafe para o livro “Futuros Imaginários”, de Richard Barbrook, pelo diálogo com a tensão entre evolução e permanência como atributos da história, e pela crítica mordaz dos desvãos do sonho americano.

Mas Barbrook, ao contrário de O’Neill, não é norte-americano (ou estadounidense, como preferem os integrantes do grupo DesCentro, que fizeram de maneira colaborativa a tradução do livro para o português) nem foi marinheiro na juventude. Cientista político, professor de hipermídia na Universidade de Westminster, na Inglaterra, Barbrook representa antes o social-democrata europeu dividido entre a exumação dos equívocos do socialismo e a tarefa de consciência crítica das ilusões atlânticas.

Sintonizado com esta missão, “Futuros Imaginários” parte de uma recordação de infância de seu autor, a visita à Feira Mundial de Nova Iorque de 1964, para fazer uma longa viagem pelo entrelaçamento entre as promessas tecnológicas do passado e a geopolítica norte-americana da Guerra Fria e pela história de apropriações políticas, econômicas, militares e culturais vividas pela tecnologia ao longo do século XX.

No percurso, expõe o uso da tecnologia como ponta-de-lança da conquista simbólica do futuro pelo capitalismo democrático americano, em oposição ao atraso comunista. Lembra o emprego bélico destruidor da maior parte dos avanços conquistados. Explora os caminhos da disseminação acadêmica e popular da cibernética de Norbert Wiener e da aldeia global de Marshall McLuhan como pedras de toque de um novo imaginário coletivo. Aponta o impacto de ambas para a difusão paralela da crença no determinismo tecnológico condicionando positivamente os destinos humanos. Recorda as promessas não-cumpridas da inteligência artificial, das viagens espaciais e da energia nuclear. Destaca a frustração das expectativas de redenção social outrora associadas ao advento das novas tecnologias digitais.

Ao fazer isso, Barbrook, ele próprio um veterano do movimento de rádios comunitárias na Londres dos anos 80, não ignora o potencial libertário efetivo da internet. Que um aparato social com a importância que ela tem hoje possa ter consolidado-se globalmente sob a hegemonia da abertura, da descentralidade e da anarquia quase irrestritas é em qualquer caso um acontecimento digno de nota em nosso mundo. Que a “economia da dádiva” e o espírito dos “commons” tenham logrado tomar a dianteira no ciberespaço, barrando em muitos casos a sua colonização pelas regras comerciais do “mundo físico”, é um imprevisto que não pode desagradar a nenhum socialista.

Mais ainda, as promessas cumpridas do livre fluxo de informação em todos os sentidos e do acesso quase irrestrito ao acervo do conhecimento humano são sismos profundos cujos efeitos talvez apenas tenham começado a propagar-se. E aqui Barbrook, como no caso da decretação das mortes da energia nuclear e do turismo espacial, talvez se traia pela impaciência das gerações do “make it new” e do tempo real em aguardar a chegada do futuro.

Mas é que não se trata aqui de medir os passos pela métrica da reforma. Do mesmo modo que denuncia ferozmente o conteúdo imperialista das conquistas tecnológicas dos EUA da Guerra Fria e desqualifica como conspirações fraudulentas as terceiras vias centristas gestadas sob o liberalismo americano, Barbrook apoia a constatação de que “a chegada da sociedade da informação não precipitou uma transformação social mais extensa” sobre o fato de que “o comunismo cibernético é bem compatível com o capitalismo ponto com“.

O futuro imaginário de Barbrook é revolucionário. E a internet portanto precisa ser julgada pela confirmação ou não da sua vocação para abrigá-lo, sob a forma de um “marxismo-mcluhanismo” de democracia participativa e criatividade cooperativa, retroalimentando a transformação social do mundo físico. Nesta perspectiva, é animador que hackers ocupem hoje o centro do imaginário contracultural, os desafios à propriedade intelectual atualizem a desobediência civil na era do conhecimento e que o Pirate Bay funcione como uma espécie de comunidade hippie contemporânea. Mas é desconcertante que antigos hippies autênticos liderem na California a reinvenção do mercado na web, como um dia ex-trotskystas impulsionaram a reinvenção do sonho americano na Guerra Fria, e que “mais do que debater os assuntos políticos urgentes do dia” a maioria dos internautas prefira dedicar-se a “fofocas sobre suas experiências pessoais, amigos, celebridades, esportes, músicas populares, programas de TV e viagens de férias”. Como um dia jovens suburbanos preferiram Elvis a Lenin.

De fato, talvez a principal promessa não-cumprida dos sonhos de uma nova sociedade em qualquer tempo seja a da criação de um “novo homem” correspondente. O que leva Barbrook a concluir sua viagem com um apelo à recuperação da crença na autonomia humana na escrita da história. A mensagem é clara, e transcende o meio: como qualquer tecnologia, a internet é apenas um conjunto de máquinas, e responderá aos comandos que dermos a ela. É natural que os velhos dilemas humanos se reproduzam ali, mas não se deve desanimar: já estava também em Marx que as restrições históricas e pessoais não impedem as pessoas de fazer sua própria história. “Para ser inteligente, o marxismo-mcluhanismo do início do século XXI deve se tornar humanista”.

Nesta atualização da fé nas possibilidades utópicas, é o caso de se perguntar o que pensará Barbrook do movimento online que sustentou a eleição de Barack Obama nos Estados Unidos no ano passado. Nova síntese inspiradora ou reprodução no presente do passado de captura do futuro por terceiras vias fraudulentas? Mas esse já é outro lance. O fato é que entre as microdoações de Obama, a exposição de gastos públicos no Brasil, os blogs de insurgentes chineses, os remixes de DJs suecos, os novos modelos de negócios das trocas virtuais e os embates simbólicos e legislativos entre o matrix e a aldeia global, há uma infinitude de novos capítulos por serem escritos até que saibamos o final dessa história. O bom do futuro é que por mais que não exista, ele está sempre em aberto.

(Resenha produzida para o caderno Prosa e Verso, do Globo, publicada em 23/5.)

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