páscoa

Do também recém-lançado (ou rebatizado) e também ótimo Maré de Notícias:

“O Movimento Moleque – movimento de mães pelos direitos dos adolescentes que cumprem medidas socioeducativas no sistema Degase do Rio – continua a apoiar famílias que enfrentam essa questão. O grupo foi fundado por Mônica Cunha e Ruth Sales, quando ambas lutavam pelos direitos dos seus respectivos filhos em 2003. De lá pra cá, Mônica perdeu o filho com 20 anos, morto por policiais. O filho de Ruth, por sua vez, está casado e hoje trabalha numa empresa de informática. “Nosso objetivo é fazer com que os familiares tenham consciência do problema e entendam o que acontece com seus filhos”, explica Mônica. O grupo está sem parceiro no momento. Quem quiser entrar em contato, deve ligar para 8142-5574 ou enviar e-mail: monicasuzana@yahoo.com.br.”

Mais informações sobre o movimento aqui.

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completamente enganada

Fabrício Corsaletti, no ótimo recém-lançado “Esquimó”:

você me olha
como se eu fosse um coveiro
do século XIX
se eu pudesse provar
que sou um coveiro do século XIX
você acreditaria que sou um poeta
não passa pela sua cabeça
que ainda existem coveiros
e cemitérios
e que os mortos continuam mortos
e que os vivos estão quase lá
você não suportaria
saber que sou um coveiro
do século XXI
assim como se irritou
quando entendeu
que estava diante de um poeta

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desrazão

Primeiro foi o frisson em torno do postulado do “Nudge” de Richard Thaler e Cass Sunstein, logo após a eclosão da crise econômica nos Estados Unidos e a posse de Barack Obama. O termo em inglês significa algo como “cutucar, empurrar delicadamente” e os dois professores da Universidade de Chicago apóiam-se nas observações da economia comportamental para propor a adoção pelo Estado de políticas que ajudem as pessoas a tomar as melhores decisões para si, levando em conta as nossas tendências à irracionalidade. Tornar automática a contratação pelas empresas de planos de previdência privada para os seus funcionários, reservando a eles a opção posterior de deixá-los ou de ajustar a sua contribuição, em lugar de deixar a cada um a iniciativa de buscar um plano para si. Informar aos compradores de novos carros a projeção dos custos com gasolina ao longo da vida útil do veículo. Incluir frutas nas merendas escolares para estimular hábitos saudáveis de alimentação. E assim por diante: prevenir pela ação do Estado os descuidos que a experiência indica que as pessoas tendem a fazer, sem chegar a colidir com o princípio da autonomia individual. Não por acaso os próprios autores definiram a doutrina como um “paternalismo liberal” e a ideia ganhou evidência nos EUA de Obama e da enxurrada de hipotecas e derivativos sem lastro.

O mesmo momento alimentou a onda de visibilidade para estudos destinados a revelar os múltiplos descaminhos pelos quais as decisões humanas afastam-se do pressuposto clássico da racionalidade. Jonah Lehrer e seu “How We Decide”, propondo-se a explorar em bases neurológicas (isto é, incluindo aí o balanço disponível da observação empírica das formas pelas quais o cérebro trabalha enquanto tomamos decisões) os múltiplos fatores emocionais e instintivos que compartilham com a deliberação racional a responsabilidade por nossos atos. Neurobiólogos reunindo indícios da habilidade de parasitas de manipular o nosso comportamento, como no caso do toxoplasma, protozoário capaz de incidir sobre os circuitos neurais de seus portadores de modo a torná-los mais impulsivos, resultando por exemplo em riscos de envolvimento em acidentes automobilísticos 3 a 4 vezes maiores do que o normal (Robert Sapolsky explica a história inteira em excelente entrevista aqui). Malcolm Gladwell e seu “Blink”, mapeando as situações cotidianas em que juízos são formados e escolhas feitas em um piscar de olhos, sem nada do processo de reunião de informações e análise de alternativas habitualmente associado à razão. Geneticistas usando com cada vez mais frequência a expressão “fomos programados para” de forma a expor comportamentos a que a herança genética nos condicionaria por default.

Agora é a vez da maré alcançar por aqui as decisões políticas. Em artigo na Folha semana passada, Hélio Schwartsman comenta os livros “The Political Brain” e “The Political Mind”, lançados nos EUA respectivamente em 2007 e 2008. Como indica a semelhança dos títulos, ambos seguem o mesmo caminho de aplicar aos processos políticos e eleitorais o instrumental da neurociência empregado pelos estudos acima, para buscar demonstrar como também os juízos políticos são condicionados por emoções e estímulos inconscientes, gravados em nossas estruturas neuronais, em proporção muito maior do que gostaria o nosso ideal de livre arbítrio. Schwartsman vai tão longe quanto indagar se diante disso a ideia de democracia continuaria a fazer sentido (embora para concluir que sim).

A crença na razão humana decididamente já teve dias melhores. Não que ela esteja propriamente em xeque: todos os exemplos acima são, afinal de contas, esforços racionais para mapear e responder à ausência dela. Mas pelo andar da carruagem, nossa confiança na espécie – ou pelo menos no “homo economicus”, craque em atuar com eficiência – não há de recuperar-se tão cedo. E tudo indica que neurociência e genética apenas começaram a mobilizar seu arsenal para nos convencer de que há muito mais conexões entre o indivíduo e suas atitudes do que sonhou a nossa vã filosofia (e mesmo a nossa não tão inocente psicologia).

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drogas

O descongelamento do debate sobre drogas é uma das melhores novidades na arena pública brasileira recente. Faz um bem imenso que o assunto possa ser discutido sem a censura prévia do tabu, e que a razão possa afinal incluir-se entre os elementos envolvidos na conversa.

Com a abertura do debate, multiplicam-se as vozes. Fernando Henrique Cardoso, Ernesto Zedillo, César Gaviria e as comissões latinoamericana e brasileira sobre drogas e democracia, chamando a atenção para o fracasso da guerra às drogas. Ethan Nadelmann e sua Drug Policy Alliance, demonstrando as incongruências presentes na construção histórica das políticas sobre drogas. Jack Cole, ex-detetive especializado em drogas da polícia de Nova Jersey, e sua Law Enforcement Against Prohibition, expondo números e resultados da proibição. John Grieve, ex-comandante da unidade de inteligência criminal da Scotland Yard, e suas 10 Razões para Legalizar as Drogas. Organizações da área traçando alternativas de regulação legal para as diferentes drogas. O Ministério da Justiça apoiando o mapeamento dos padrões de aplicação da lei de drogas no Brasil. Grupos brasileiros como o Growroom, o Desentorpecendo a Razão e a Marcha da Maconha demonstrando muito mais consistência e lucidez do que gostariam os críticos que tentam proibi-los. Veículos tão diversos como a The Economist e o Le Monde Diplomatique repercutindo esses movimentos. E assim por diante, com cada vez mais agentes entrando em cena e mais links aqui.

Vale a pena dedicar atenção a eles, no mínimo pelo gosto da exploração de um conjunto de informações muito mais amplo do que o revelado pelo senso comum sobre o tema. De forma resumida, as evidências e argumentos reunidos neste esforço convergem para três observações principais.

A primeira: o que pauta a nossa atitude coletiva em relação às drogas é historicamente muito mais a maneira como elas são socialmente percebidas do que os riscos associados a elas. Preconceitos e tensões entre classes ou grupos sociais importam mais do que evidências científicas (reproduzindo, de resto, um viés bem conhecido das políticas criminais em geral). Assim é que, por exemplo, ópio, maconha e cocaína foram utilizados cotidiana e mesmo clinicamente nos Estados Unidos até o início do século 20, até que a percepção do seu consumo por parte de imigrantes chineses e mexicanos e de negros – e os medos associados a isso – levaram à sua proibição. Assim é que, por outro lado, o consumo de álcool e tabaco, produzidos industrialmente por cidadãos respeitáveis, pôde ao mesmo tempo ser estimulado – inclusive por seus supostos efeitos benéficos, retratados na publicidade relacionada a eles. Ou que hoje antidepressivos, estimulantes, energéticos e fortificantes diversos tornam-se cada vez mais onipresentes, em pleno apogeu da estratégia de “guerra às drogas”. Cada um com seus vícios, medos e manias: mas em função deles a linha mestra do tratamento público às drogas foi sempre dada pelo lugar social de quem produz e quem consome cada uma delas, bem antes de uma análise objetiva de suas faculdades.

A segunda: é preciso retomar a questão dos limites do direito do Estado e da sociedade a controlar hábitos privados. Não é o argumento mais forte no front do debate público atual, mas mereceria mais atenção. Porque se o fundamento é a proteção do indivíduo contra um hábito que pode lhe fazer mal, então seria preciso admitir a possibilidade de amanhã proibirmos ou limitarmos legalmente o consumo individual de açúcares e gorduras, além do próprio tabaco e do álcool. Se o que importa é o risco indireto do consumo vir a causar danos a terceiros, então parece óbvio que um consumidor eventual de vinho deveria ter o mesmo tratamento de um consumidor eventual de maconha. Os paralelos poderiam seguir (incluindo mais uma vez o universo dos estimulantes – que “te dão asas” -, anabolizantes e drogas terapêuticas em geral), e seu cruzamento com a perspectiva histórica apontada acima dá o que ponderar. Não existe razão objetiva para que os termos “enólogo”, “cervejeiro”, “cocalero” e “maconheiro” tenham as conotações distintas que têm. É uma questão de justiça e de igualdade perante a lei compatibilizar os tratamentos a estes diferentes consumidores.

A terceira: abuso de drogas é ruim, a guerra às drogas é pior. A proibição, gerando o mercado ilegal e a violência, corrupção e marginalização cotidianas associadas a ele, é responsável por muito mais danos e vidas perdidas do que o consumo que ela visa – sem sucesso – combater. É preciso ter claro: nenhuma das vozes citadas questiona que drogas sejam potencialmente danosas ou defende a sua legalização pura e simples, sem controles e políticas públicas associados. O que está em questão é a coerência, a eficácia e os efeitos colaterais das estratégias adotadas para lidar com elas. Passadas mais de 4 décadas de políticas baseadas na proibição e na meta de erradicação, será que faz mesmo sentido ter multiplicado por 4 a taxa de encarceramento relacionada a delitos de drogas nos Estados Unidos e por 700 as despesas com o seu combate, sem qualquer alteração perceptível nos indicadores de consumo dessas substâncias? Ou contar com 40% dos detentos brasileiros em regime fechado condenados por tráfico de drogas (a grande maioria na condição de pequenos funcionários do negócio)? Ou mobilizar organizações policiais ou divisões militares inteiras para converter regiões de cidades ou países em verdadeiras praças de guerra em nome da reiteração sem fim dessa estratégia? São questões como essas que motivam um número crescente de observadores lúcidos a buscar um caminho alternativo. E a senha para ele também não chega a ser surpreendente: controlar, informar e reduzir danos, reconhecendo a existência do fenômeno social, é muito mais eficaz do que tentar eliminá-lo. E você não tem como controlar e regular algo que é ilegal.

Sabemos disso: usamos a alternativa da regulação e da informação para lidar com o álcool, tabaco, analgésicos, estimulantes, calmantes, antidepressivos e outros produtos cuja fronteira entre o uso benéfico ou recreativo e o abuso danoso está nas condições e nas doses com que são consumidos. Esta via se mostrou ao longo do tempo mais bem-sucedida tanto em relação à permissividade plena por muito tempo adotada para o álcool e o tabaco, quanto à proibição absoluta que impera até hoje para a maconha, a coca, os alucinógenos e outras substâncias ilícitas. Foi positivo reduzir a permissividade em relação ao tabaco e ao álcool, será positivo e realista ampliá-la em grau adequado em relação às drogas hoje criminalizadas.

E o caso é que esta correção de rumo não é apenas um componente secundário, de interesse específico de uma parcela reduzida da sociedade, representada pelos interessados em consumir legalmente esta ou aquela substância ou por liberais zelosos da autonomia individual. É, sim, um elemento central para a possibilidade de superar com sucesso alguns dos nossos principais problemas nos âmbitos da segurança e da saúde públicas. Não é de fato um exagero óbvio dizer que na perspectiva dessas duas áreas, a opção pela guerra às drogas é hoje de longe causa de mais problemas do que o consumo delas.

São recursos públicos mobilizados, vidas consumidas e estigmas ampliados demais para que se possa deixar de tratar a questão em nome de poupar-se de um debate público desgastante e controverso. Foi preciso substituir o objetivo primordial da erradicação do narcotráfico pelo do primado da vida e da liberdade de circulação para poder-se falar com consistência na pacificação das favelas do Rio de Janeiro. É preciso substituir a marginalização pela compreensão e oferta pública de apoio para a superação da dependência química de qualquer substância. Será preciso rever preconceitos e atitudes em relação às drogas ilícitas para conter o círculo vicioso perverso associado à sua proibição.

Por isso, talvez, é que a conversa franca sobre o assunto imponha-se aos poucos com a força que precisa ter. Com o passar do tempo, vai ficando claro que não haverá como avançar sem encará-la. Para isso, não é preciso concordar com tudo o que está dito acima. Basta ter abertura para a busca de soluções com base na observação serena de evidências e argumentos, e não em crenças ou temores pré-estabelecidos (sem que se saiba bem quando e por quem). De fato, uma injeção de sobriedade tem tudo para incidir saudavelmente sobre a nossa relação com as drogas.

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freyre e demóstenes

Em causas de alta relevância e polarização, nunca foi fácil argumentar com matizes.

Mas nesta semana de debate das cotas raciais no Supremo Tribunal Federal, uma amiga me enviou o link com a notícia da exposição anticotas feita lá pelo senador Demóstenes Torres, acompanhado do comentário: “O Gilberto Freyre serve para sustentar esse tipo de argumentação. Ele não é só isso, claro. Mas é isso também. E não é pouca coisa ter o Demóstenes Torres evocando Gilberto Freyre para dizer que o estupro foi consensual e que a miscigenação no Brasil foi bonita.”

Hoje Elio Gaspari e Miriam Leitão, na Folha e no Globo, reforçam o repúdio devido ao senador.

Não há o que comentar sobre a fala de Demóstenes e seu poder de síntese sobre os malabarismos mentais feitos por parte da elite brasileira para conviver com a própria má consciência. Nem é fácil divergir da amiga em questão (é uma amiga querida, de resto).

Mas a observação dos matizes necessários neste caso me impede de desconsiderar uma diferença primordial: eu acho sim que a miscigenação brasileira foi e é uma coisa bonita. Ou pelo menos, para formular em termos que permitam um acordo, que tem sua beleza a ser defendida.

Não preciso para isso negar o estupro, o racismo persistente e o fato da escravidão permanecer por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Apenas evitar a armadilha das generalizações binárias no calor do combate. E isso não por um capricho acadêmico ou literário, mas pelo valor que tem também para a história das relações humanas no Brasil.

O povo chocolate e mel da refavela de Gilberto Gil e a japonesa loura e a nordestina moura da São Paulo do Premeditando o Breque são um fato (e têm sua própria complexidade a exigir atenção, como nos lembra Mano Brown no trecho destacado no Consciência Mulata publicado abaixo). Como o são também o sincretismo cultural e religioso e os caboclos, cafuzos, mamelucos e mulatos (“pardos”, na sintomática – pela sugestão de negatividade que contém – terminologia aglutinadora adotada pelo IBGE) espalhados por nossas vastas solidões.

A criação de um imaginário capaz de saudar esses fatos e acolhê-los como parte constituinte da nossa identidade em formação não foi simplesmente uma conspiração da elite branca para ocultar o passivo da escravidão e evitar o surgimento de uma consciência negra no país, mas também e principalmente uma construção histórica notável, em um momento em que o conceito de raças e o elogio da pureza racial ainda circulavam com desenvoltura no universo intelectual do ocidente. Não foi pouco nem gratuito ter sabido responder a isso com o ideal da mistura como fundamento do nosso próprio valor e singularidade.

Não foi e não é, em um momento em que o convívio com o diferente está longe de ser um problema resolvido naquele mesmo universo. Quando um chamado como “hoje tem festa no gueto / pode vir, pode chegar / misturando o mundo inteiro / vamos ver no que é que dá / tem gente de toda cor / tem raça de toda fé / guitarras de rock’n roll / batuques de candomblé” é festejado por multidões insuspeitas na variedade de cores e acolhido como música-tema nacional durante a Copa do Mundo (como aconteceu em 2002), há algo de valioso – e atualizado – a ser notado.

Mas talvez tudo isso aconteça porque havia também algo de preciso na narrativa do Brasil feita por Gilberto Freyre, entre outros. Narrativa que o texto de Elio Gaspari lincado acima me poupa da tarefa de livrar da acusação de negligenciar a brutalidade da escravidão. Mas cujo mérito está justamente em não se limitar a ela, e avançar na exploração da complexidade, ambiguidades e nuances da experiência brasileira. Pretender vinculá-la à sua apropriação indébita pelos Demóstenes Torres das nossas tribunas equivale ao sociólogo Demétrio Magnoli buscando associar o movimento negro ao nazismo, já que ambos lidam com a noção de raça. Nos dois casos, ativismos excessivos turvando a compreensão mais fina do que está em jogo.

E mais uma vez, o requisito de sutileza responde aqui a mais do que um mero preciosismo.

Porque na observação da complexidade e na defesa da evidência da mistura há de estar, como esteve antes, a dica para a formulação de uma saída original para o dilema da quitação da dívida histórica sem o apequenamento do “branco é branco, preto é preto” e da “one drop rule” que acompanham as políticas afirmativas no contexto norteamericano que as inspira. Padê em lugar de apartheid, encontro e entrelaçamento mais ainda que multiculturalismo, como sugere Antonio Risério.

Por sua vez, na desconstrução do paralelo vulgar de Magnoli, uma pista que pode talvez ajudar a colocar a conversa em termos mais adequados: o que está em debate não é uma questão racial, mas histórica. A justificativa para o benefício das políticas afirmativas aos negros e mestiços brasileiros não deriva da sua negritude em maior ou menor grau, mas do legado secular da escravidão. Ele sim segue presente como uma de nossas características nacionais (embora e felizmente talvez já não a única), e é o imperativo do seu banimento tardio que particulariza neste caso os grupos sociais em questão.

Tudo isso pode soar evidente, mas são detalhes que importam, e os rumos das leituras da semana fizeram sentir a necessidade de agregar o palpite. Para fazer isso, quero crer, é permitido repudiar os sofismas de Demóstenes e Magnoli sem precisar levar junto as visões policromáticas de um Gilberto, seja ele Freyre ou Gil, e de quem mais atender ao chamado do gueto, seja ele Pelourinho ou Capão Redondo. Inclusão nas universidades, empresas, governos e espaços de poder em geral pode e deve afinal de contas ter tudo a ver com mistura.

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consciência mulata

Ainda Mano Brown na Rolling Stone:

De cor parda (“e raça negra”), Brown diz que os iguais a ele, mestiços, sofrem mais com o racismo do que os negros atualmente. Na visão dele, os pardos não usufruem do recente fortalecimento da autoestima do povo negro, que acontece há mais de uma década e engloba desde o sucesso dos Racionais até a eleição de Barack Obama. “No Brasil, você não vê gente da minha cor fazendo comercial, fazendo nada. Se eu não fosse o Mano Brown, seria invisível na rua.” Há uma música sobre o tema pronta para o novo disco dos Racionais, não por acaso intitulada “O Homem Invisível”.

Nas conversas com o negro Ice Blue, o assunto também surge. “Sou até muito mais discriminado do que o Blue. E os caras da minha cor, desse meu tom de pele, também. Você vê nas cadeias, na Febem. O cara tem medo hoje de discriminar um cara como o Blue, tem medo de falar um ‘a’ para um preto. Agora, um cara como eu, é toda hora, irmão. É pobre, tem cara de pobre, tem cor de pobre. Se quiser, fala que é ‘moreninho’. Tenho um biótipo de ladrão. É um lance do brasileiro. Quando a escravidão estava para ser abolida, tinha muitos filhos de branco com preto nas ruas, abandonados, que não eram nem um nem outro, e foram virar ladrão mesmo. A primeira classe de gente abandonada foi a dos filhos de branco com negro, o filho rejeitado do patrão. Foram os primeiros vagabundos, que não serviam nem para um nem para outro, nem para escravo nem para senhor. É uma teoria pequena minha, não é a regra.”

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fim da canção

Fim da canção é um mote sedutor. Tem a atração acolhedora de toda melancolia.

Termino de ler o ensaio de Fernando de Barros e Silva, na revista Serrote, sobre o assunto.

Como todos antes dele, ele persegue a lebre levantada por Chico Buarque no final de 2004 (em entrevista ao próprio Barros e Silva): “Assim como a ópera, a música lírica, foi um fenômeno do século 19, talvez a canção, tal como a conhecemos, seja um fenômeno do século 20. No Brasil, isso é nítido. [...] Quando você vê um fenômeno como o rap, talvez seja o sinal mais evidente de que a canção já foi, passou.”

O texto é bom, repleto de insights e referências instigantes. A tese é simples: a proposta de Chico não pode ser tomada ao pé da letra, ou da partitura, mas sim em seu conteúdo simbólico. A canção, é claro, continua a existir, apenas com menor originalidade e centralidade (como a ópera, sempre se poderia dizer). Não vem ao caso discutir isso. O fim que conta é o do mito/projeto dela como expressão refinada de uma identidade comum do povo brasileiro.

E conta mais, propõe Fernando, pelo que revela dos caminhos do Brasil de hoje: “Se essa discussão vai além de um cabo de guerra tolo entre especialistas, para tocar, como sugerimos, em um nervo sensível da cultura, é também porque ela transborda por todos os lados e exprime uma dúvida de fundo a respeito do momento histórico atual.”

O fim do mito da canção seria o correspondente estético do esgotamento de seu projeto político. Fala José Miguel Wisnik: “No Brasil, a possibilidade de haver música popular difundida em grande quantidade e com extraordinária qualidade ligou-se ao mesmo tempo ao horizonte de uma modernização progressista do país.” Este horizonte, diz Barros e Silva, é que teria sumido junto com a canção do nosso campo de visão.

Não é pouca coisa. E alguém poderia sugerir que é projeção demais para um pobre violão (tanta expectativa em torno da música popular faz pensar no Fitzcarraldo de Werner Herzog, empenhado em levar ópera Amazônia adentro). Mas é justo também: a canção popular no Brasil guarda a marca profunda de um tempo (ou de um século, como propõe Chico), e um tempo em que todos souberam cantar “Chega de Saudade” tem sua beleza a ser velada.

Só que Fernando de Barros vai além. Logo depois de alertar que o mito/projeto em questão nunca foi muito mais do que das classes médias letradas dos centros urbanos, trai-se na constatação de um “rebaixamento brutal do gosto” e uma “regressão da audição” no Brasil de hoje, por conta da hegemonia de gêneros como o neosertanejo, o axé ou o pagode (e é sintomático que não lhe ocorra então falar em funk, brega ou forró eletrônico). Recorre a uma excelente oposição proposta por Marcelo Coelho entre “Gente Humilde” (“e eu que não creio, peço a Deus por minha gente, é gente humilde, que vontade de chorar”), de 1969, e “Subúrbio” (“lá não tem claro-escuro, a luz é dura, a chapa é quente, que futuro tem aquela gente toda), de 2006, para enxergar aí um Chico Buarque, como aquelas mesmas classes médias letradas, inquieto diante da afirmação regressiva de linguagens e poderes periféricos.

Nesta leitura, o “fala Penha, fala Irajá, fala Encantando, Bangu, fala Realengo” de “Subúrbio” seria antes uma rendição do que uma saudação. O “evoé, jovens à vista” de “Paratodos”, em 1993, não teria sido bem para esses jovens (os da “língua do rap”). E Chico estaria então “exilado dentro de casa” – a canção, o Rio de Janeiro, o Brasil.

Não é o caso de disputar com Barros e Silva a primazia da interpretação de Chico Buarque (o mesmo de “Carioca” e “Baioque”). Mas talvez seja o de propor que cada um fale por si.

Chico em 2004 apenas cantava a bola da década de Lula, das periferias emergentes e do “agora por eles mesmos”. E o fazia com a grandeza e generosidade habituais, sem em nenhum momento pedir que não se altere o samba tanto assim. Não é a ele portanto que qualquer saudosismo deve ser imputado.

Já eu, por exemplo, escrevo tudo isso sem conseguir deixar de pensar na “Lapa” de “Guinga e Pedro Sá”, “Lula e FH”, cantada por Caetano ainda no ano passado. Ou em Mano Brown reverenciando “Construção” na Rolling Stone. No êxito não-tutelado dos dois filhos de Francisco, de Chimbinha e Joelma, Marlboro e Márcio Victor (e de Lula também, por que não?). Em Marina Silva e MV Bill advogando educação de qualidade.

As imagens poderiam multiplicar-se, até bem além dos limites do “nosso samba” de “Feitiço”, que já em 2002 tinha “mangue beat, berimbau, hip-hop, Vigário Geral, Capão Redondo e Candeal”. E funk. Imagens todas, creio eu, da mesma década antevista por Chico e que escapam sugestivamente ao radar de Barros e Silva.

Não ignoro, é claro, as acusações de complacência que sua invocação pode despertar. Nem o muito por avaliar na distância entre o país, a “nova classe média” e a musicalidade que resultam daí e os roteiros de progresso e inclusão traçados pela canção. Mas gosto de refletir sobre a oposição entre as repetições insistentes de “tem” em “Feitiço” e de “não tem” em “Subúrbio”. E vejo inícios (ou continuações) demais em tudo isso para satisfazer-me com o “fim de linha histórico” a que Fernando de Barros chega no final de seu ensaio.

Tem mais samba o perdão que a despedida. Diante de um texto tão genuinamente belo como o de Barros e Silva, não serei eu a reivindicar a massa afinal comendo o fino biscoito que fabricamos. No fundo, a motivação fundamental desse artigo é apenas a de não poder deixar de notar os riscos de excessos no trato tanto com mitos, quanto com contramitos. Ao apontar a mistificação contida nas expectativas das classes médias letradas em relação à canção, Fernando de Barros lembra como elas “muitas vezes, inclusive no período em questão, confundiram suas aspirações (e ilusões) com os interesses nacionais”. Talvez seja preciso cuidado para não fazer o mesmo com as desilusões.

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artista inconfessável

João Cabral de Melo Neto, em entrevista a Bebeto Abrantes em 1999, recém-publicada na revista Sibila:

- Para você, João, escrever era uma coisa fácil ou uma coisa que exigia…
- Dificílima, foi sempre uma coisa muito difícil, sabe?
- Mas talvez por uma autoexigência elevadíssima, não é? Por que você acreditava que era difícil, você sentia como difícil?
- Porque eu não queria fazer essa poesia que todo mundo faz, compreende?
- Se era tão difícil, por que você escrevia?
- Ah, por uma necessidade interior.
- Necessidade da alma?
- Necessidade que a pessoa tem de ter um hobby.

 

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política é bola na rede

O presidente Lula gosta muito de futebol e de valer-se de metáforas futebolísticas para falar de política. Eu gosto também, de futebol e da eficiência das metáforas do presidente.

Mas tudo na vida tem sua boa dose. Há algo de errado quando toda a política pode ser equiparada a uma liga de times disputando um troféu.

Lendo os jornais de janeiro, pôde-se acompanhar a chegada de Roberto Carlos ao Corinthians do centenário. A ida de Vagner Love para o Flamengo, compondo com Adriano uma dupla quase tão improvável quanto aquela com que o PSDB sonha para sua chapa presidencial (os “dois Tostões” do presidente Lula). O retorno promissor de Dodô no Vasco. A permanência de Kleber no Cruzeiro, depois do suspense. As tentativas frustradas do São Paulo de tomar Guiñazu do Internacional ou Robinho do Santos. A escassez de novos nomes no Palmeiras.

Do mesmo modo, pôde-se também aprender que o PT joga com Sérgio Cabral no Rio, mesmo se o PMDB não o fizer com Jacques Wagner na Bahia. Que Lula no embalo tenta escalar Marcelo Crivella na chapa de Cabral, mas Jorge Picciani não abre mão da posição. Que Jader Barbalho vai esperar pelas pesquisas no Pará, mas se tudo correr bem volta a formar dupla com a governadora Ana Júlia. Que Michel Temer insiste na vaga de vice e propõe até a elaboração de um programa de governo conjunto para a candidatura com Dilma, mas sugere a Aécio que se ele estivesse na disputa o quadro seria outro. E assim por diante.

Duas pré-temporadas, igualmente monótonas na preparação dos álbuns de figurinhas… Tudo certo com o futebol, que clubes não têm mesmo que se preocupar com mais do que títulos (e a favor deles diga-se que no futebol pelo menos os nomes dos patrocinadores aparecem estampados nos uniformes). Mas não deveria ser demonstração de ingenuidade ponderar que com partidos políticos a história deveria ser outra.

Eu sei: pode-se sempre sugerir que foi sempre assim (a única novidade, se tanto, sendo o momento em que o PT desistiu de vez de cumprir o papel de reserva moral e optou por entrar em campo também e tirar o atraso). Ou que nosso sistema político é assim. Ou que política é assim. Ou ainda propor, com parte da melhor ciência política nacional, que apesar disso na prática do dia-a-dia executivo e parlamentar nossos partidos não deixam de demonstrar mais coesão e inclinações programáticas do que se costuma supor. E apoiar-se nisso para esperar que haja tempo para o jogo melhorar, quando a campanha / campeonato começar pra valer.

Mas ajudaria enxergar mais ideias e propósitos no horizonte – se não dos políticos, pelo menos do jornalismo político. E não anima que tudo que haja proposto até aqui seja uma discussão de torcidas em torno de quem tem mais triunfos paulistas ou brasileiros, comparações de saldo de gols, passes errados e artilharias, e prognósticos sobre quem leva a próxima Libertadores. Vá lá: esta será uma eleição relevante, não um “jogo do século”, e nós podemos fazer melhor do que isso.

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