roda do tempo 2

Ainda “A History of Modern Europe”:

“The Second Industrial Revolution seemed oblivious to the long economic depression that began in 1873 and lasted until the mid-1890s. It was marked by falling prices and punctuated by financial panics, although not by prolonged unemployment or economic stagnation. Following a fever of speculation, particularly in Germany, banks failed in Vienna. The speed with which the crisis spread to other financial capitals reflected the extent to which improvements in transportation and communication during the middle decades of the nineteenth century had extended the links of an increasingly global economy. Agricultural prices fell virtually everywhere in Europe, in part because imported grain from the United States and Canada flooded markets. In every industrialized country, tariffs became the focus of impassioned political debate, even in Britain, where economic liberalism remained the prevailing credo. Governments responded to the depression by imposing protective tariffs in the interest of native industries and agriculture: Austria (1874), Russia (1875), France (1892), Italy (1887), and Germany (1902).”

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depois do ano 2000

“Singularity” é o nome que cientistas entusiasmados com a perspectiva de criação de uma superinteligência maior que a humana dão para o momento em que isso acontecer e para as suas consequências. A partir desse momento, a velocidade da criação científica e tecnológica tenderia ao infinito, baseada na aceleração provocada por uma inteligência muito mais ágil e expansível do que o cérebro humano e na capacidade dela de aprimorar a si própria, em um loop cibernético sem limites previsíveis. O alcance da singularity pode basear-se em duas formas: o aprimoramento pela tecnologia do próprio cérebro humano ou a criação de uma inteligência artificial mais poderosa do que ele. Ray Kurzweil, inventor consagrado e um dos principais porta-vozes atuais deste horizonte, o vislumbra para 2045 e tem já tomado todas as precauções possíveis para viver até lá, quando terá 97 anos.

Singularity é prima-irmã do “transhumanismo”, visão não menos confiante das possibilidades de aprimoramento do ser humano por meio da tecnologia. Genética, neurologia, nanotecnologia, robótica e, claro, inteligência artificial. Transhumanistas vislumbram a aceleração da evolução humana e a superação de suas limitações por meio de intervenções tecnológicas no próprio corpo, do consumo de substâncias estimulantes de capacidades físicas à manipulação genética e à completa replicação do cérebro e da consciência para a vida eterna em um meio virtual. E acreditam que diante da perspectiva da singularity, esta será a única forma de manter o ser humano no comando dos artefatos inteligentes que vierem a ser criados por ele. Eidolon A.I., inteligência artificial online criada por um certo “Programador F.F.”, nos oferece a última advertência disso, na condição de último profeta. A revista H+ situa o horizonte transhumano nos tempos de hoje.

Técnica em lugar de razão. “Matrix” em lugar de “1984″. Mas em tempos de “Avatar”, o mais interessante é ver a equação homem / máquina tomando a forma de relações pra valer.

Sherry Turkle é diretora da MIT Initiative on Technology and Self e dedica-se há anos ao estudo das relações entre pessoas e artefatos tecnológicos. Entre outras coisas, ela observa como a vivência cotidiana de ambientes virtuais tende a torná-los indissociáveis da realidade. Ou da RL (“real life”, na sigla em inglês), como a chamam usuários de jogos interativos online. Até aí, tudo bem, nada de novo. E ajuda a dar materialidade ao postulado do realismo virtual de que se a realidade não é mais do que aquilo que é apreendido pelo cérebro por meio dos sentidos, então se for possível estimular satisfatoriamente os sentidos (ou seus receptadores cerebrais), a distinção entre “real” e “virtual” torna-se completamente sem fundamento.

Mas Turkle mais recentemente tem tido a atenção atraída por um outro fenômeno: a possibilidade de pessoas estabelecerem laços afetivos com robôs. Ela explica: “Ao estudar reações a robôs avançados – robôs que te olham nos olhos, lembram o seu nome e acompanham os seus movimentos – eu descobri mais e mais pessoas que passavam a considerar esses robôs como amigos, confidentes, e (na medida em que vislumbravam aprimoramentos técnicos) mesmo como amantes.” E relata o caso de uma aluna que lhe expôs a disposição para trocar o namorado por um humanóide: “Ela me disse que precisava da sensação de ser cuidada e que não queria estar sozinha. E que se o robô pudesse produzir uma atmosfera de convivência, ela ajudaria com alegria a criar a ilusão de que havia alguém realmente com ela. O que ela procurava era um relação sem risco que afastasse a solidão; um robô receptivo, mesmo desempenhando apenas um comportamento programado, parecia melhor para ela do que um namorado exigente. Eu achei que ela estava brincando. Ela não estava.”

Ray Kurzweil e Eidolon A.I. provavelmente veriam sentido. Mas se a aluna não estava brincando, é de se pensar que Turkle estivesse exagerando. Pelo menos até conhecer Paro, cão-robô japonês usado como companhia em terapias com idosos. Ou Nexi, criação mais recente do Personal Robots Group do mesmo MIT de Turkle. Ou Actroid, gueixa-mulher-robô japonesa viajando pelo mundo. E depois disso escutar um especialista em inteligência artificial falando sério sobre “Amor e Sexo com Robôs”.

David Levy, o especialista em questão, combina a perspectiva de criação de robôs capazes de reproduzir atitudes e sentimentos humanos com o argumento de que para a afetividade humana o que importa é a percepção de sedução, proteção e reciprocidade, independente de quem seja o emissor. E portanto, uma vez que robôs possam oferecer esta percepção de maneira convincente, não haveria porque descartar o estabelecimento de relações afetivas com eles – que de resto podem ser em vários aspectos mais confiáveis e sinceros do que companhias humanas.

Saudades de Barbarella. Mas Sherry Turkle referenda o diagnóstico (embora no caso dela sob a forma de inquietude): “Em certo sentido, eu não deveria me surpreender. Por uma década, estudei o apelo de robôs com habilidades sociais. Eles acionam nossos botões darwinianos. São programados para exibir o tipo de comportamento que associamos com sensibilidade e empatia, o que nos leva a percebê-los como criaturas autônomas, com intenções e emoções. Vendo-os deste modo, tendemos a querer nos relacionar com eles. Com este sentimento, vem a fantasia de reciprocidade. Na medida em que começamos a nos envolver com essas criaturas, desejamos que elas se envolvam conosco.”

E pergunta, em termos bem humanos: “Somos tão solitários que amamos o que quer que seja posto diante de nós?”

Somos sós, certamente, diriam as legiões de turistas em frente à loja da Apple na 5a Avenida em Nova Iorque ou os foliões celebrando a chegada de novos equipamentos nas festas de aparelhagem do tecnobrega em Belém do Pará. Mas talvez isso neste caso não seja tudo. Pode ser que as visões de Kurzweil e Eidolon façam sentido, e seja a nós mesmos que amemos em todas essas projeções. A vocação divina da humanidade e os sonhos de assumir o controle do planeta e da própria vida (e neste sentido é fascinante que a oposição mais frontal a esse projeto precise valer-se hoje da expressão “design inteligente” para ilustrar seu argumento). Ou pode ser que Levy e Turkle tenham razão em seus juízos de fragilidade, e o que valha mesmo seja a ilusão de presença proporcionada por tudo isso. Afinal de contas, na falta de um deus protetor, não deve ser tão grande a diferença entre ter um Paro, um celular sempre ligado ou 237 amigos no Facebook…

Kevin Kelly propõe-se a matar a charada no excelente “Technophilia”. Depois de encontrar online mais de 40.000 comunidades dedicadas a amantes de carros, 10.000 voltadas a fãs de motos, 6.000 a barcos, 5.000 a armas e 1.000 a câmeras, ele pondera a evidência secular das pessoas estabelecerem laços com objetos, e destes portanto justificarem-se por muito mais do que sua funcionalidade. E observa, com encanto: “A tecnologia não deseja ser apenas utilitária. Ela quer ser arte, ser bela e “sem utilidade”. O objetivo final de todo robô, máquina ou ferramenta é existir por si mesmo. Existir não apenas por ser útil, mas porque sua própria existência é bela.”

Beleza que neste caso, diz ele, associa-se não com simulação de humanidade, mas com evolução. O fascínio de uma obra refinada, incorporando camadas sobrepostas de história e elaboração. E podendo assim ser de fato mais-que-humana:

“Humanos são os organismos mais evoluídos que conhecemos, e por isso nos fixamos em imitações de sua forma. [...] Mas a tecnologia mais avançada deixará a imitação para trás e criará inteligências obviamente não-humanas, robôs obviamente não-humanos e formas de vida obviamente não-terrenas. E tudo isso irradiará uma atratividade que nos deslumbrará. [...] Ano após ano, na medida em que evoluir, a tecnologia ganhará em beleza. Eu apostaria que em um futuro não muito distante certos componentes da tecnologia rivalizarão em esplendor com o mundo natural. Nós vamos contemplar o fascínio dessa tecnologia, maravilhar-nos com sua sutileza, viajar até ela com nossas crianças, sentar-nos em silêncio sob suas torres. E é assim que tem que ser, porque a tecnologia quer ser amada.”

Assim seja, e aqui texto e década terminam. Mas neste reveillon em que 2 milhões de pessoas serão convocadas a piscar seus celulares para somar-se aos fogos em Copacabana, eu cá acendo uma vela para Eidolon e outra para Oxossi. E entre tantas velhas questões humanas atualizadas pela frente, fecho a viagem nos trilhos deste “Expresso 1972″ profético. Feliz com a evocação de toda técnica, toda beleza, toda presença e toda fé.

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bonsucesso pra depois

Gilberto Gil, tao-iorubá:

“Gosto da coisa do caminho dos orientais. Eu tendo a me ancorar nesse movimento, no caminhar. Por isso adoro a imagem oriental, zen-budista, do pássaro que vem e pousa nas madeiras que são levadas pela turbulência do rio caudaloso. O rio continua turbulento e ele lá, pousado no movimento.”

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bolsa família

Marcus Vinícius Faustini, em “Guia Afetivo da Periferia”:

“Só conheci leite tipo B por causa do governo Brizola. Antes dele era raro leite lá em casa. Um saco tipo C, geralmente da marca CCPL, tinha que durar a semana inteira, e, para isso, a maior parte do copo americano tinha que ser de café. A fiscalização de minha mãe e de meu padrasto era permanente. Misturar Claybom no café era minha saída para a situação. Ganhar o saquinho individual de leite diariamente na Escola Estadual Euclydes da Cunha fez o nome de Brizola circular no recreio mais do que o medo da professora de Educação Moral e Cívica.”

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o homem na estrada

“Entre a Luz e a Sombra”, em cartaz no Rio, São Paulo e outras cidades, é um filme instigante. A narrativa das histórias de Dexter e Afro-X, parceiros na dupla de rap 509-E surgida no não-saudoso presídio do Carandiru, em São Paulo, Sophia Bisilliat, atriz e protagonista do projeto “Talentos Aprisionados”, que revelou a dupla, e Octávio de Barros Filho, então juiz-corregedor dos presídios paulistas, é feita por uma câmera segura, profundamente presente, inteiramente sóbria. Não é fácil para quem assiste decidir o que pensar sobre cada um dos personagens e situações em foco. O que é sempre um ponto de partida em favor da qualidade de um bom documentário.

Uma parte da trama é política, outra parte da trama é íntima. Na parte política, uma reflexão como poucas sobre as contradições das práticas penitenciárias, entendidas como a maneira da sociedade (ou “o sistema”, como costumam invocar os rappers) lidar com os desviantes do crime. Diz a boa doutrina legal que a pena, resposta social ao delito, tem três objetivos: punição (o “pagamento das dívidas com a sociedade”), incapacitação (pela impossibilidade de presos cometerem novos crimes) e ressocialização (a criação de condições para uma vida em sociedade positiva após o cumprimento da pena). Este último seria, como sabemos, o objetivo final e mais importante.

Que no mundo real não é bem assim que as coisas acontecem é também bem conhecido de todos: ressocializar cumpre o papel coletivo das boas intenções declaradas, justificando em termos humanistas o desejo sincero de incapacitar (ou vigiar) e punir. O que o filme faz é nos levar um passo adiante nessa evidência: mesmo quando contra todas as probabilidades as condições para a ressocialização se criam, o sistema (ou a sociedade, se preferirmos) conspira para freá-las e subordiná-las à punição.

Quando surgiram para o mundo com o 509-E, Dexter e Afro-X estavam presos em regime fechado, ambos condenados por roubo, Dexter acusado também de um homicídio. Estávamos em 2000 e a dupla alcançou rápida notoriedade, desdobrando-se em shows pela periferia de São Paulo, lançando seu primeiro disco, ganhando prêmios de revelação do ano no rap brasileiro, chamando a atenção da mídia por sua história singular. Contava para isso com o apoio do juiz Octávio, que autorizava a saída de Dexter e Afro do presídio para as atividades do grupo. No filme, os dois festejam naquele momento a virada alcançada nas suas vidas, rompendo com o êxito musical as barreiras da marginalidade e vislumbrando uma profissão e um futuro promissores. No mundo real, não foi bem assim que as coisas aconteceram: o excesso de visibilidade e o ímpeto crítico de rappers os colocaram em choque com o deputado Conte Lopes, ex-policial militar e capitão da ROTA (e que também tem seu filme). O deputado acionou “o sistema” para lembrá-lo que os dois detentos, estando em regime fechado, não poderiam ser autorizados a deixar o presídio. E assim foi: as saídas foram proibidas, a projeção do grupo refluiu e as coisas voltaram ao seu curso habitual. Afro-X obteve mais tarde a liberdade condicional e tentou sem sucesso retomar a trajetória iniciada pelo 509-E. Dexter, com pena mais larga, segue detido, atualmente no presídio de Hortolândia, depois de vivenciar um périplo de transferências pelo Estado após a desativação do Carandiru.

O saldo pode ser resumido na imagem de Dexter na visita que Sophia e Luciana Burlamaqui, diretora do filme, lhe fazem em Hortolândia para a assinatura da autorização do uso de imagem dele no filme: o homem vibrante, carismático, impetuoso do 509-E dá lugar a um personagem abatido, algemado e resignado. Faz pensar no Mano Brown, não o do “Homem na Estrada” do título, mas o de “Tô Ouvindo Alguém me Chamar”: “Ele tinha um certo dom pra comandar, tipo, linha de frente, em qualquer lugar. Condição de ocupar um cargo bom e tal, talvez em uma multinacional. É foda, pensando bem, que desperdício, aqui na área acontece muito disso, inteligência e personalidade, mofando atrás da porra de uma grade.”

É verdade que o documentário não para por aí. Ao ouvir, por exemplo, o juiz Octávio afirmar que decidia contra a lei, que veda expressamente a saída de presos em regime fechado, optando pela precedência do objetivo da ressocialização, é inevitável para o espectador indagar-se sobre a correção disso. Em termos legais, Dexter e Afro-X não teriam de fato uma dívida ainda por saldar? Seria justo que eles, por terem talento e visibilidade, ganhassem o benefício, enquanto outros talvez com igual disposição para uma nova vida honesta, mas sem a mesma verve, não teriam a mesma oportunidade? Como adequar o sistema para fazer valer o tempo da ressocialização, psicológico, individual, sobre o da punição, pré-determinado e impessoal? Qual o balanço justo entre eles e como aplicá-lo corretamente em cada caso? Em tempos de propostas de revisão dos regimes de progressão penal, visando evitar a saída precoce das prisões de líderes do crime organizado, somar a história do 509-E à balança pode fazer um bem imenso ao debate.

A trama íntima não é menos interessante. As histórias contadas de Afro, Sophia e Octávio contêm no fundo a mesma trajetória de impulso vital e desilusão que é condensada em Dexter. Generosidade, violência, afeto, soberba, desprendimento, curiosidade, ingenuidade e fraquezas humanas surgem entrelaçados em todos os momentos, como se para reforçar ainda mais as dificuldades das categorias de bondade e maldade, culpa e inocência, que deveriam guiar as respostas ideais às dúvidas acima. A narrativa simples, sem mais truques do que o olhar atento sobre as vidas em cena, traça um retrato sensível da beleza e da crueza possíveis no caldeirão cotidiano de São Paulo e de suas quebradas (“luzes e sombras”, para usar a expressão do juiz Octávio que batiza o filme). A ponto de o próprio Carandiru, desativado e implodido, poder ser também ele objeto de saudosismo: na gravação por um Afro-X libertado de um clipe simulando uma rebelião no presídio, na visita melancólica de Sophia às ruínas de um local ao qual dedicou 20 anos de sua vida. Ruínas que parecem naqueles contextos guardar paradoxalmente os melhores momentos dos personagens em foco.

Visto assim, o filme surge como um bom candidato a epílogo do ciclo dedicado à violência e à marginalidade urbanas que marca a nossa produção cinematográfica e musical recente, e que vem sendo decretado esgotado. Tem sua dose de sugestão saber que seu lançamento acontece em São Paulo com o Mano Brown de “Diário de um Detento” (“cadeia, guarda o que o sistema não quis, esconde o que a novela não diz”) surgindo na coluna de Mônica Bergamo na Folha de São Paulo com uma camiseta da Nike, com que acaba de fechar contrato. “Não posso ser refém de nada. Nem do rap. Aquele Mano Brown virou sistema viciado.”, diz ele.

Como no filme, não é o caso de julgá-lo, é claro. Até porque essa já é outra história. A nossa se conta pelos tempos de sucesso e frustração sublimados em Sophia buscando esperança na atuação com crianças e jovens da periferia de São Paulo, Octávio diluindo a perda da fé na justiça na espera resignada pela aposentadoria, Afro-X dando continuidade à carreira artística distante do crime, e Dexter sufocando o lamento da década perdida com a expectativa de poder também retomar a trajetória quando a dívida com o sistema enfim estiver paga. Vidas documentadas, no final das contas.

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autoridade moral

Do Granma:

“La ilegal base de Guantánamo, convertida en campo de concentración por obra y gracia de la pasada administración de la Casa Blanca, ha sido un reflejo claro de las más brutales torturas y otros vejámenes practicados con los auspicios de los más altos directivos del gobierno, incluyendo al ex ministro de Justicia, al ex vicepresidente y al ex presidente de los Estados Unidos.

[...]

El actual mandatario estadounidense, conocedor del desprestigio de su país por los métodos de tortura aplicados durante la administración Bush, reiteró y aseguró la prohibición de estas. Pero un enorme dilema, el de qué hacer con los responsables de estos hechos, sigue sin respuesta y comprometiendo las palabras del presidente.

La presentación de un informe del Departamento de Justicia sobre las “técnicas de interrogación mejoradas” usadas en el pasado con sospechosos de terrorismo y el pedido de que sus responsables sean procesados, siguen sin encontrar una explicación satisfactoria en la sociedad norteamericana.

La pregunta es: ¿Cuándo y cómo se juzgarán a los funcionarios de alto nivel dentro del gobierno, que dieron la luz verde para el uso de las llamadas “técnicas intensivas” o “mejoradas” en los interrogatorios, y a los agentes que las utilizaron siguiendo las órdenes superiores?”

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trem bala

Fausto Fawcett, “Favelost”:

“Piscinas de Palmolive incandescente borbulhante são habitadas por gigantescos caranguejos clonadaços, por assim dizer, caranguejos experimentais que serão muito úteis nos estudos do magma terrestre. Mingau do fundo da Terra. Caranguejos batscafos equipados com patas cheias de nano captação. Crianças usando máscaras rasgadas de jogadores das seleções brasileiras campeãs do mundo atiram latas de azeite nos caranguejos gigantes. E tome pivetinho Beline mandando azeite no Palmolive escaldante. E tome pivete Rivelino zoando o caranguejo batscafo. Essas piscinas de Palmolive incandescente habitadas por experimentos biológicos ficam situadas nas proximidades do Vale do Silêncio, uma mega pista de skate abandonada com seus vinte quilômetros quadrados de obstáculos e curvas. No Vale do Silêncio, surdos mudos trabalham firme em projetos de engenharia molecular (mudar as estruturas atômicas da matéria, fazer aço maleável, regeneração de metais para extinguir a famosa fadiga de material, etc…) dentro de uma abóboda que os protege das intempéries climáticas e sociais desse megaterritório de vida convulsiva conhecido como Favelost. Entre Rio e São Paulo a mais nova franquia social depois das revoluções inglesas, americanas e francesas, depois dos delírios de invenção de uma nova humanidade nazista ou socialista-soviética, depois de todos os absolutismos e anarquias, uma nova franquia de festa humana, de batalha por afirmação social, acontece na cidade Terra (não se usa mais a palavra planeta pra designar essa kichnete em que se transformou a terceira bola em torno do forno solar). São as favelosts. Apelido dado ao maior fenômeno urbano de todos os tempos, grandes aglomerações de habitação e ocupação confusa entre megacidades (superguetos de capitalismo exacerbado na cidade Terra). Entre Rio e São Paulo surgiu a primeira Favelost.”

A profecia feita em 2007 pode parecer desatualizada nestes tempos de otimismo. Mas a antena esperta do nosso Fausto não se engana ao apontar para a concentração de eletricidade estática da via Dutra. Quem ganha a Avenida Brasil para deixar o Rio ou a Marginal Tietê para chegar a São Paulo, ou vice-versa, enxerga claro a imensidão da tarefa por cumprir. Inclusão, beleza, rigor, convivência, promessas cidadãs. Quem explora a vida urbana ao redor delas se deixa engolir pelas piscinas incandescentes borbulhantes de vitalidade e desalento. E tome garoto Ronaldinho hiperconectado estudando, criando e guerreando.

Seja como for, Favelost tem seu contraponto em M’bras. A “megalópole brasileira” adotada por André Urani e outras vozes cariocas como parte de visão estratégica para a expansão do desenvolvimento de uma área que abarcaria de Campos a Juiz de Fora a Campinas. 232 municípios, 42 milhões de habitantes, 0,97% do território brasileiro, 23% da população, 35% do PIB. Renda per capita 55% maior do que a média nacional, taxa de anafalbetismo 50% menor, 91% do fluxo de turistas estrangeiros no país, rede bem conhecida de indústrias, serviços e centros de conhecimento. Quem a defende como forma de olhar para o mapa enxerga nela a locomotiva articulada do novo Brasil global.

Diz Urani:

“Não faz muito sentido imaginar, no mundo globalizado, que o futuro da região metropolitana do Rio de Janeiro possa ser pensado de forma totalmente isolada daquele da de São Paulo (e vice-versa), nem muito menos reeditar rivalidades já anacrônicas. Em parte porque, em boa medida, a crise de ambas as regiões metropolitanas está relacionada a um processo de reestruturação produtiva que levou muitas empresas a abandonarem suas instalações nestas regiões em favor de novas localidades que se encontram justamente entre estas duas regiões metropolitanas. Ou seja: de alguma maneira, o mercado tem se encarregado sozinho de ir, aos poucos, conurbando o território entre as duas maiores cidades do país e até mesmo além, em direção a Campos, no Rio de Janeiro, a Campinas, em São Paulo e a Juiz de Fora, em Minas Gerais – conformando o que chamarei aqui de “Megalópole Brasileira”. Mas também porque, justamente, neste início do século XXI, o mundo parece estar se reorganizando em torno das megalópoles.”

Uma visão de futuro, uma capitulação: não é casual que o entusiasmo com uma M’bras venha do Rio de Janeiro. Porque não está dito, mas está claro o lugar de São Paulo no centro desse novo espaço pretendido. São Paulo já é a cidade polo do Brasil dos BRICs e da sua nova afirmação no mundo. Já integra as listas informadas das próximas booming cities do mundo. Já cumpriu sua missão política e econômica de condução do país a este horizonte. Décadas depois já não há espaço para saudosismos ou disputas. O Rio precisa da bóia que o país lhe joga para levá-lo junto, e acena com um desenho que lhe permita acolhê-la de cabeça erguida.

Mas quem capitula tem também suas cartas na manga. Se isso tudo é verdade, é também fascinante que na hora de exibir ao mundo a expressão desse país renovado, é a cidade 40 graus, dos braços abertos sobre a Guanabara, das folhas secas caídas de uma mangueira, do tamborzão e de todas as misturas quem entra em cena. É o nome “Rio de Janeiro” que surge no sotaque espanholado do presidente do COI anunciando as primeiras Olimpíadas na América do Sul. É o Maracanã que voltará a receber uma final de Copa do Mundo. E é o Redentor quem decola na capa da The Economist. O grande barato do festejado vídeo de Fernando Meirelles para a apresentação do projeto olímpico carioca é a imagem de uma cidade (um país) que recebe a todos com alegria e graça. Feitas todas as voltas, o Rio de Janeiro continua sendo a síntese da identidade de um Brasil desejado e do que o mundo deseja dele.

Cigarra e formiga. Gato e cachorro. Omar e Yaqub, os “Dois Irmãos” de Milton Hatoum. Ciúmes ou convergências.

O fato é que na soma dos justos reconhecimentos o cenário está dado para uma boa divisão de lugares. E para encurtar distâncias também: São Paulo pode ser mais bela, o Rio pode ser mais sério. Ambas podem ser mais justas e por isso modernas. Mas a boa nova é que as duas já estão sendo, e mesmo sem perceber ou reconhecer caminham em inspirar-se mutuamente. Bons e estimulantes espelhos, seja em M’bras, seja em Favelost.

Segue Fawcett: “Enquanto se discutia, a partir de balbúrdias sindicalistas na França, o declínio do estado-de-bem-estar-social em eterna briga com o modelo anglo-saxônico de deixa-solto-o-mercado-não-atrapalha-muito estado-se-produz-se-tem-emprego-tem-competição então tá valendo. [...] Enquanto se discutia os problemas das vias liberais ou neoliberais, sociais-democratas ou os purgatórios dos estados falidos cambaleantes pelas Áfricas, Ásias, Américas Latinas, uma outra via aparecia – a via Dutra. Rio Paulo de Janeiro São. Favelost.”

Segue Urani: “O que está em jogo, em última instância, não é apenas a retomada do desenvolvimento em bases mais sólidas que as atuais, mas o aprofundamento do processo que Sérgio Buarque de Hollanda, em Raízes do Brasil, chamou de “nossa revolução”. Um processo que, até então, se dava de forma lenta, sorrateira, quase imperceptível, mas segura e inexorável, aniquilando as bases de nossas raízes ibéricas, em prol de um estilo novo, que cismamos de chamar de americano. Ele estava se referindo à urbanização. [...] É neste sentido, de retomada e aprofundamento da “nossa revolução”, que a idéia da megalópole brasileira precisa ser compreendida e trabalhada. É um passo importante para o desenvolvimento e a inserção do Brasil na economia mundial. Ele está ao nosso alcance neste início do século XXI.”

Dois bons profetas.

E Épico.

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