política é bola na rede

O presidente Lula gosta muito de futebol e de valer-se de metáforas futebolísticas para falar de política. Eu gosto também, de futebol e da eficiência das metáforas do presidente.

Mas tudo na vida tem sua boa dose. Há algo de errado quando toda a política pode ser equiparada a uma liga de times disputando um troféu.

Lendo os jornais de janeiro, pôde-se acompanhar a chegada de Roberto Carlos ao Corinthians do centenário. A ida de Vagner Love para o Flamengo, compondo com Adriano uma dupla quase tão improvável quanto aquela com que o PSDB sonha para sua chapa presidencial (os “dois Tostões” do presidente Lula). O retorno promissor de Dodô no Vasco. A permanência de Kleber no Cruzeiro, depois do suspense. As tentativas frustradas do São Paulo de tomar Guiñazu do Internacional ou Robinho do Santos. A escassez de novos nomes no Palmeiras.

Do mesmo modo, pôde-se também aprender que o PT joga com Sérgio Cabral no Rio, mesmo se o PMDB não o fizer com Jacques Wagner na Bahia. Que Lula no embalo tenta escalar Marcelo Crivella na chapa de Cabral, mas Jorge Picciani não abre mão da posição. Que Jader Barbalho vai esperar pelas pesquisas no Pará, mas se tudo correr bem volta a formar dupla com a governadora Ana Júlia. Que Michel Temer insiste na vaga de vice e propõe até a elaboração de um programa de governo conjunto para a candidatura com Dilma, mas sugere a Aécio que se ele estivesse na disputa o quadro seria outro. E assim por diante.

Duas pré-temporadas, igualmente monótonas na preparação dos álbuns de figurinhas… Tudo certo com o futebol, que clubes não têm mesmo que se preocupar com mais do que títulos (e a favor deles diga-se que no futebol pelo menos os nomes dos patrocinadores aparecem estampados nos uniformes). Mas não deveria ser demonstração de ingenuidade ponderar que com partidos políticos a história deveria ser outra.

Eu sei: pode-se sempre sugerir que foi sempre assim (a única novidade, se tanto, sendo o momento em que o PT desistiu de vez de cumprir o papel de reserva moral e optou por entrar em campo também e tirar o atraso). Ou que nosso sistema político é assim. Ou que política é assim. Ou ainda propor, com parte da melhor ciência política nacional, que apesar disso na prática do dia-a-dia executivo e parlamentar nossos partidos não deixam de demonstrar mais coesão e inclinações programáticas do que se costuma supor. E apoiar-se nisso para esperar que haja tempo para o jogo melhorar, quando a campanha / campeonato começar pra valer.

Mas ajudaria enxergar mais ideias e propósitos no horizonte – se não dos políticos, pelo menos do jornalismo político. E não anima que tudo que haja proposto até aqui seja uma discussão de torcidas em torno de quem tem mais triunfos paulistas ou brasileiros, comparações de saldo de gols, passes errados e artilharias, e prognósticos sobre quem leva a próxima Libertadores. Vá lá: esta será uma eleição relevante, não um “jogo do século”, e nós podemos fazer melhor do que isso.

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