rio

A série “Democracia nas Favelas” publicada pelo Globo ao longo dessa semana é uma boa nova sobre uma boa nova.

A primeira novidade é a evidência nascente do Rio de Janeiro afinal assimilando o sentido de que é preciso fazer segurança pública e outras políticas para as favelas, e não contra elas. Ou para promover direitos e inclusão, e não por complacência paternalista. Parece trivial, mas sendo verdade é movimento que desloca o prisma local da casa grande/senzala para o da cidade contemporânea. Colônia de engenho para modernidade. Nostalgia aristrocrática para visão de futuro.

É animador ver a presença da polícia em favelas sendo formulada sob a ótica dos benefícios para seus moradores. Vê-los ganhando rostos como personagens possíveis da cidade: indo e vindo, formulando expectativas e histórias de vida, negociando aspirações e conflitos do convívio democrático. Circulação sem receio, reconquista do espaço público, o horário da festa e o volume do som, o mercado imobiliário, serviços públicos autorizados a instalar-se, ensaios de ausência de fronteiras e interação com o “asfalto”. Cidade.

Já não era sem tempo. E a segunda boa nova é justamente que uma visão assim se revele no Globo. Não por qualquer ranço preconceituoso contra o jornal, mas pela sugestão da Zona Sul carioca compreendendo este movimento. Não é pequena nem assintomática a distância entre manchetes como “tiroteio no Cantagalo leva pânico a Ipanema”, de 2005, e “cidadania lenta e gradual”, que abre a série dessa semana. É verdade que ainda falta muito, as matrizes delimitadas pelas duas manchetes ainda se alternam na disputa de espaço (basta lembrar a expressão recente da compulsão pela remoção de favelas, restando saber quais favelas exatamente se quer remover), a visão ainda não vai além do que está ao seu alcance (Zonas Norte e Oeste continuam não existindo, estamos longe ainda de conversar sobre os mapas da exclusão, da educação, da saúde etc. da cidade inteira). Mas uma coisa de cada vez, e a de agora é não deixar escapar o que há de novo sob o Sol.

Porque é mais do que a foto do dia, é o imaginário da cidade. Do mesmo modo que em São Paulo a lei “Cidade Limpa” funcionou como ponto de inflexão no subconsciente de uma cidade que se sentia irremediavelmente feia e voraz, propagando o desejo e a crença nas possibilidades de refazê-la bela e habitável, no Rio, que jamais duvidou da própria beleza e urbanidade, a imagem de sucesso das “Unidades de Pacificação” que vai se delineando é clara candidata a cumprir o papel em relação ao sentimento de ilegalidade e fragmentação insuperáveis.

Não dá pra ver menos, porque não dá pra querer menos, depois de tanto tempo. Um passo em boa direção é apenas isso, alguém poderia e deveria dizer. Mas em termos públicos quando se vem de andar em círculos ou quando o movimento parece encaixar uma nova convergência de rumos, pode ser mais. Poder terminar a leitura com a percepção de que algo se move no Rio de Janeiro para além dos ciclos de perplexidade e resignação diante do declínio é certamente mais. Parecer possível somar a isso a intuição nas entrelinhas de um futuro desejável – confiante, diverso, voltado para adiante – compartilhado é nova que não pode deixar de ser saudada. Para quem compartilha do desejo, a série dessa semana pode ser bom antídoto para “Leite Derramado”.

Deixe um Comentário

Campos requeridos possuem um *.