são paulo

Um amigo carioca chega eufórico de fim-de-semana em SP. Virada Cultural. Os serviços, a educação das pessoas, a gentileza. Não quer mais o estado permanente de alerta do Rio. Não quer mais ser malandro.

Caetano dá seu testemunho sobre o assunto.

Sim, o bom carioca traído pelo espelho no alto da serra não se engana: São Paulo não é malandra, é terra de gente ordeira e trabalhadora, e é gentil. Caipira mesmo, disciplinada no cultivo, simples no trato cotidiano, afetuosa na receptividade, quase ingênua no fascínio das descobertas do mundo. Deslumbrante e deslumbrada, a maior cidade do interior de São Paulo.

Mas São Paulo foi sempre a cidade do trabalho, dinheiro e debandada no feriado. Nenhum convívio na rua. Nenhum compromisso com a beleza, nem mesmo com a riqueza pública. Vida privada e selva de pedra. Terra de Jânio, Ademar e Maluf, lançando viadutos sobre a intelectualidade transviada. Convencida do vigor ou das oportunidades que pudessem haver nisso.

“A cidade de São Paulo na América do Sul não era um livro que tinha cara de bichos esquisitos e animais de história. Apenas nas noites dos verões dos serões de grilos armavam campo aviatório com os berros do invencível São Bento as baratas torvas da sala de jantar.”

Muito bem: é isso que está mudando. Museu da Língua, Cidade Limpa, Augusta, Racionais, jovens cantoras discretas e elegantes, sim. E também praças com skate e ginástica, livrarias com bancos e poltronas, CEUs e saraus, novas calçadas. “Nossa São Paulo”, muito mais importante pelo nossa do que pelo São Paulo, e pela imensa quantidade de pessoas e movimento que há aí.

A cidade já não se apraz em ser selva, quer ser cidade. É sintomático demais que a Lei Cidade Limpa muito mais do que funcionado, tenha permanecido 3 anos depois como citação primeira de bom governo na fala de virtualmente qualquer paulistano. E não é coincidência que o último debate eleitoral sobre a cidade tenha presenciado os líderes Kassab e Marta disputando a primazia na criação de escolas e postos de saúde na periferia, no número de novos parques inaugurados e no transporte público, enquanto Soninha sustentava que tudo isso era pouco e falava em ciclovias, e Maluf falava sozinho que tudo era secundário e que o importante mesmo era abrir novas vias para fazer os carros circularem e a cidade não parar. Não foi apenas Maluf que ficou sujo, aquele discurso é que ficou velho.

E assim a terra dos imigrantes desterrados vai se tornando a cidade dos paulistanos.

Que isso se dê simultaneamente à confirmação da visão rejuvenescedora de sua melhor elite no final dos anos 90 de conversão dela em cidade global pós-industrial e à sua afirmação como ponta-de-lança de um novo Brasil aprimorado e emergente é uma conjunção feliz, que faz jus à trajetória. Ronaldo é da Fiel.

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