trem bala

Fausto Fawcett, “Favelost”:

“Piscinas de Palmolive incandescente borbulhante são habitadas por gigantescos caranguejos clonadaços, por assim dizer, caranguejos experimentais que serão muito úteis nos estudos do magma terrestre. Mingau do fundo da Terra. Caranguejos batscafos equipados com patas cheias de nano captação. Crianças usando máscaras rasgadas de jogadores das seleções brasileiras campeãs do mundo atiram latas de azeite nos caranguejos gigantes. E tome pivetinho Beline mandando azeite no Palmolive escaldante. E tome pivete Rivelino zoando o caranguejo batscafo. Essas piscinas de Palmolive incandescente habitadas por experimentos biológicos ficam situadas nas proximidades do Vale do Silêncio, uma mega pista de skate abandonada com seus vinte quilômetros quadrados de obstáculos e curvas. No Vale do Silêncio, surdos mudos trabalham firme em projetos de engenharia molecular (mudar as estruturas atômicas da matéria, fazer aço maleável, regeneração de metais para extinguir a famosa fadiga de material, etc…) dentro de uma abóboda que os protege das intempéries climáticas e sociais desse megaterritório de vida convulsiva conhecido como Favelost. Entre Rio e São Paulo a mais nova franquia social depois das revoluções inglesas, americanas e francesas, depois dos delírios de invenção de uma nova humanidade nazista ou socialista-soviética, depois de todos os absolutismos e anarquias, uma nova franquia de festa humana, de batalha por afirmação social, acontece na cidade Terra (não se usa mais a palavra planeta pra designar essa kichnete em que se transformou a terceira bola em torno do forno solar). São as favelosts. Apelido dado ao maior fenômeno urbano de todos os tempos, grandes aglomerações de habitação e ocupação confusa entre megacidades (superguetos de capitalismo exacerbado na cidade Terra). Entre Rio e São Paulo surgiu a primeira Favelost.”

A profecia feita em 2007 pode parecer desatualizada nestes tempos de otimismo. Mas a antena esperta do nosso Fausto não se engana ao apontar para a concentração de eletricidade estática da via Dutra. Quem ganha a Avenida Brasil para deixar o Rio ou a Marginal Tietê para chegar a São Paulo, ou vice-versa, enxerga claro a imensidão da tarefa por cumprir. Inclusão, beleza, rigor, convivência, promessas cidadãs. Quem explora a vida urbana ao redor delas se deixa engolir pelas piscinas incandescentes borbulhantes de vitalidade e desalento. E tome garoto Ronaldinho hiperconectado estudando, criando e guerreando.

Seja como for, Favelost tem seu contraponto em M’bras. A “megalópole brasileira” adotada por André Urani e outras vozes cariocas como parte de visão estratégica para a expansão do desenvolvimento de uma área que abarcaria de Campos a Juiz de Fora a Campinas. 232 municípios, 42 milhões de habitantes, 0,97% do território brasileiro, 23% da população, 35% do PIB. Renda per capita 55% maior do que a média nacional, taxa de anafalbetismo 50% menor, 91% do fluxo de turistas estrangeiros no país, rede bem conhecida de indústrias, serviços e centros de conhecimento. Quem a defende como forma de olhar para o mapa enxerga nela a locomotiva articulada do novo Brasil global.

Diz Urani:

“Não faz muito sentido imaginar, no mundo globalizado, que o futuro da região metropolitana do Rio de Janeiro possa ser pensado de forma totalmente isolada daquele da de São Paulo (e vice-versa), nem muito menos reeditar rivalidades já anacrônicas. Em parte porque, em boa medida, a crise de ambas as regiões metropolitanas está relacionada a um processo de reestruturação produtiva que levou muitas empresas a abandonarem suas instalações nestas regiões em favor de novas localidades que se encontram justamente entre estas duas regiões metropolitanas. Ou seja: de alguma maneira, o mercado tem se encarregado sozinho de ir, aos poucos, conurbando o território entre as duas maiores cidades do país e até mesmo além, em direção a Campos, no Rio de Janeiro, a Campinas, em São Paulo e a Juiz de Fora, em Minas Gerais – conformando o que chamarei aqui de “Megalópole Brasileira”. Mas também porque, justamente, neste início do século XXI, o mundo parece estar se reorganizando em torno das megalópoles.”

Uma visão de futuro, uma capitulação: não é casual que o entusiasmo com uma M’bras venha do Rio de Janeiro. Porque não está dito, mas está claro o lugar de São Paulo no centro desse novo espaço pretendido. São Paulo já é a cidade polo do Brasil dos BRICs e da sua nova afirmação no mundo. Já integra as listas informadas das próximas booming cities do mundo. Já cumpriu sua missão política e econômica de condução do país a este horizonte. Décadas depois já não há espaço para saudosismos ou disputas. O Rio precisa da bóia que o país lhe joga para levá-lo junto, e acena com um desenho que lhe permita acolhê-la de cabeça erguida.

Mas quem capitula tem também suas cartas na manga. Se isso tudo é verdade, é também fascinante que na hora de exibir ao mundo a expressão desse país renovado, é a cidade 40 graus, dos braços abertos sobre a Guanabara, das folhas secas caídas de uma mangueira, do tamborzão e de todas as misturas quem entra em cena. É o nome “Rio de Janeiro” que surge no sotaque espanholado do presidente do COI anunciando as primeiras Olimpíadas na América do Sul. É o Maracanã que voltará a receber uma final de Copa do Mundo. E é o Redentor quem decola na capa da The Economist. O grande barato do festejado vídeo de Fernando Meirelles para a apresentação do projeto olímpico carioca é a imagem de uma cidade (um país) que recebe a todos com alegria e graça. Feitas todas as voltas, o Rio de Janeiro continua sendo a síntese da identidade de um Brasil desejado e do que o mundo deseja dele.

Cigarra e formiga. Gato e cachorro. Omar e Yaqub, os “Dois Irmãos” de Milton Hatoum. Ciúmes ou convergências.

O fato é que na soma dos justos reconhecimentos o cenário está dado para uma boa divisão de lugares. E para encurtar distâncias também: São Paulo pode ser mais bela, o Rio pode ser mais sério. Ambas podem ser mais justas e por isso modernas. Mas a boa nova é que as duas já estão sendo, e mesmo sem perceber ou reconhecer caminham em inspirar-se mutuamente. Bons e estimulantes espelhos, seja em M’bras, seja em Favelost.

Segue Fawcett: “Enquanto se discutia, a partir de balbúrdias sindicalistas na França, o declínio do estado-de-bem-estar-social em eterna briga com o modelo anglo-saxônico de deixa-solto-o-mercado-não-atrapalha-muito estado-se-produz-se-tem-emprego-tem-competição então tá valendo. [...] Enquanto se discutia os problemas das vias liberais ou neoliberais, sociais-democratas ou os purgatórios dos estados falidos cambaleantes pelas Áfricas, Ásias, Américas Latinas, uma outra via aparecia – a via Dutra. Rio Paulo de Janeiro São. Favelost.”

Segue Urani: “O que está em jogo, em última instância, não é apenas a retomada do desenvolvimento em bases mais sólidas que as atuais, mas o aprofundamento do processo que Sérgio Buarque de Hollanda, em Raízes do Brasil, chamou de “nossa revolução”. Um processo que, até então, se dava de forma lenta, sorrateira, quase imperceptível, mas segura e inexorável, aniquilando as bases de nossas raízes ibéricas, em prol de um estilo novo, que cismamos de chamar de americano. Ele estava se referindo à urbanização. [...] É neste sentido, de retomada e aprofundamento da “nossa revolução”, que a idéia da megalópole brasileira precisa ser compreendida e trabalhada. É um passo importante para o desenvolvimento e a inserção do Brasil na economia mundial. Ele está ao nosso alcance neste início do século XXI.”

Dois bons profetas.

E Épico.

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